QUANDO SEU CACHORRO DESAPARECE
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junho - 2017


UM OSCAR NA MINHA VIDA

O dia que meu cachorro sumiu

(Cristiane S. Moraes)


Desde aquele dia que eu cheguei em casa com o Óscar, a três anos, era sempre o Morrão quem preparava e dava a comida dele. Essa era a primeira providencia depois de me beijar e suspender Gabi um pouquinho no colo. Morrão picava um pouco da carne do jantar, misturava com aquela ração absurdamente cara que ele fazia questão de comprar para o Oscar e ia colocar no prato dele.CACHORRO OSCAR Oscar executava movimentos semi circulares, demonstrando impaciência até que Morrão terminava o ritual e ordenava: “-Coma. Coma tudo”. Naquela noite porém, acontecia algo de muito raro. Óscar não estava nas imediações na hora do jantar. Nem nas imediações, nem em lugar nenhum, como descobrimos logo em seguida.
         -Gabizinha, vai informar a sua majestade Óscar, que o jantar dele já está servido.
         Gabi saiu pela porta da cozinha, foi até a garagem, deu a volta pela frente da casa, voltou correndo pelo corredorzinho lateral e disparou:
         -Óscar sumiu.
         -Como sumiu, perguntamos juntos acompanhando os passos apressados dela, que corria pela casa vistoriando os ambientes internos.
         Eu já sentia uma terrível intuição. Pela cara do Morrão ele pensava a mesma coisa e a Gabi já tinha certeza: Oscar tinha fugido.
         Demos uma nova procurada mais detalhada, incluindo dispensas e quartinhos dos fundos. Nada. Gabriela correu pra rua, e nós atrás. Correu até uma esquina chamando pelo cachorro e depois até a outra e nem sinal.
         -Gabriela volte aqui, ordenou Morrão, adivinhando que ela queria ir mais longe. Vamos pegar o carro e dar uma volta no quarteirão. Ele não pode estar longe.
         Então corre, Pai, corre! E correu pra dentro pra pegar a chave do carro que Morrão sempre deixava na mureta da copa.
         -A chance de encontrar o Oscar é muito maior agora do que daqui a alguns minutos comentou Morrão
         _Vamos Gente, estamos perdendo tempo disse Gabi, concordando com o pai.
         Entramos no carro. Gabriela ia atrás e se movimentava de um lado pra outro naquele banco que eu sempre comparava com o do meu Ká e sempre achava um exagero.
         Fique só do lado de Lá, Gabi. Ordenei tentando colocar um pouco de ordem na bagunça. Eu tomo conta desse lado e Morrão se preocupa só em dirigir.
         De fato, organizados desta forma, a coisa parecia mais produtiva. Estávamos dando uma verdadeira batida. Primeiro rodamos o quarteirão, depois fomos aumentando nosso raio de ação até que percorrer todo o bairro, sem nem sinal do nosso cachorro.
         Vamos procurar nas jaqueiras, choramingou Gabi, sugerindo nos afastar ainda mais. Do seu posto ela observava tudo.
         -Tá ali! Eu vi o Oscar, Volta pai, o Óscar tá ali!.-Onde Gabi?
         -O Óscar tá naquela rua, volta pai. Morrão deu marcha ré e entrou na tal rua. Confesso que eu também pensei que era o Óscar, mas a medida que íamos nos aproximando e a coisa não se movia, começamos todos a perceber que era apenas uma pedra que sequer se parecia com um cachorro, muito menos com o nosso.
         Vamos pra casa. Sentenciou Morrão. No escuro todos os gatos são pardos e o Óscar já deve ter se enfiado em algum lugar pra se proteger. Vamos voltar em círculos como fizemos até agora. Já passa das nove. Se chegarmos em casa sem encontrar o Óscar vamos traçar uma estratégia de ação pra amanhã.
         Morrão não sugeria. Determinava. Vamos então- concordei eu – A Gabi, depois de um “Mas Pai...” olhou pra mim e entendeu que a ordem era pra ser cumprida.
         Eu temia que chegando em casa, Gabriela fosse cair numa choradeira inconsolável como a maioria das crianças costumam fazer, mas me enganei. Ela olhou para o Morrão e perguntou pensativa: Pai, quando você chegou o Oscar estava em casa?
         Estava, filha. Respondeu ele prontamente em tom tranquilizador. Ele saiu, deu o bordejo dele, e entrou.
         “O bordejo dele”, era uma rotina imutável do Óscar sempre que o portão se abria pro Morrão entrar com o carro. Óscar saia, ia até o pé da lixeira do nosso vizinho do lado esquerdo, fazia o xixi dele, depois atravessava a rua, fazia xixi no sombreiro do nosso vizinho de frente, voltava, fazia outro xixi na palmeira da nossa vizinha da direita e vinha embora, às vezes fazia mais um xixi no poste que havia no caminho e entrava. Era assim todo dia. Todo santo dia. Às vezes eu tinha medo que ele numa dessas vezes que atravessava a rua, pudesse ser atropelado, mas nossa rua é de pouco trânsito e eu acabava me convencendo que esse risco só existia na minha cabeça.
         -Você viu ele entrar?
         -Ele entrou, filha. Todo dia ele...
         Pai, a pergunta é: você viu o Óscar entrar de volta em casa depois do bordejo? Você viu ele ENTRANDO?
         Morrão olhou pra mim. Na cara dele estava escrito “NÃO. Não vi. Fechei o portão achando que ele tinha entrado, mas não vi ele entrar.”
         Gabriela olhou pra mim:” O Óscar não entrou - diziam os olhos escancarados dela.
         Morrão desmoronou no sofá. -Vamos encontrar o Óscar - Murmurou tentando dar tranquilidade mais a si próprio do que a qualquer uma de nós. Ele é um cachorro esperto e certamente escolheu um lugar seguro pra passar a noite. Amanhã vamos cedo procurar. A maioria dos cães desaparecidos são encontrados nas primeiras 24 horas. Então amanhã a gente traz ele pra casa.
         É. Ele não pode estar longe. - concordei, também para tranquilizar mais a mim do que à Gabi ou ao Morrão. A ideia do nosso cachorro dormindo sabe-se lá onde, era muito desconfortável para todos nós. –“ Amanhã a gente acha ele”.
         -Dificilmente um cão se afasta mais de 3 quilômetros de casa. Por mais rápido que sejam, eles não costumam andar em linha reta. Li isso na internet no tempo da Petra.
         - Sei não. O Oscar com aquelas perninhas compridinhas, a essa hora já deve estar no Paraguai.
         - Animador seu comentário, Gabi, pena que ninguém está precisando desse tipo de incentivo agora.
         -Desculpem. Sentamos pra jantar eu e Morrão. A Gabriela foi La pra dentro, pro computador preparar uma foto do Oscar para postar nas redes sociais e alguns cartazes para colar em pontos estratégicos da cidade.
         - Mas que cretino esse Oscar. Mas que raiva! Um cachorro que tem de tudo do bom e do melhor, aprontando uma falseta dessas com todo mundo...
         - Não é isso que está me parecendo, Cristã. Só não posso afirmar com certeza absoluta, mas Óscar não fugiu. Ele só se afastou um pouco e não soube voltar. Ele não fugiu.
         Morrão comeu alguma coisa, ajudou a recolher a louça na pia e como na verdade, não havia clima pra janta, foi buscar o notebook para pesquisar sobre cães fujões e o que fazer em momentos como esse.
         Descobrimos que de fato, os fujões costumam permanecer num raio de no máximo 3 quilômetros de casa. Cães de raça, ou de alto valor de mercado, em 90% dos casos não fogem, e sim são roubados. Não é o caso do Óscar. Não acredito que alguém daria um centavo por ele.
         Descobrimos também que a maneira como o cão reage a pessoas estranhas, determina até onde ele vai chegar. Um cão manso, desses que abanam o rabo pra todo mundo vai procurar outros cães e humanos amigáveis. Tem mais chances de parar de fugir e passará a frequentar jardins e parques públicos.
         Os cachorros sem histórico de convivência com outros cães, os cães assustados e os idosos, não confiam em estranhos e vão evitar o contato com as pessoas tentando se afastar o máximo. Com o passar do tempo esse tipo de animal se torna menos arredio e se aproxima das casas para procurar comida, mas fica com aparência feia, magro, sujo e muitas vezes doente. As pessoas pensam que não tem dono e dessa maneira pode ficar vagando e até morrer precocemente.
         Ele irá se esconder, por exemplo, em moitas, embaixo de sucatas, terrenos vazios, ruas sem movimento, casas vazias, casas para alugar, ou em obras paradas. Quando enxotados de um abrigo, partem a procura de outro. Evitam qualquer tipo de reação e se tornam cada vez mais medrosos.
         Morrão parou de ler e ficou em silencio, controlando a emoção. Eu tinha lágrimas nos olhos.



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