O CACHORRO OSCAR. ELE ESTÁ LATINDO
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Maio 2017


UM OSCAR NA MINHA VIDA
Ele está latindo


(Cristiane S. Moraes)


Antes de continuar a contar pra você a história do meu Oscar, eu vou deixar aqui um link para o começo da história, assim quem perdeu e quiser ler tudo desde o começo, basta clicar aqui e ler como tudo aconteceu.
        Na parte onde paramos, meu marido Mohamed conversava com minha filha Gabriela, inconformada por achar que Oscar não gostava dela. Como era conciso e objetivo o meu Mohamed Al Salem. Não imaginava que ele tivesse uma noção tão exata da situação do meu Óscar. Senti um imenso bem estar. Lembrei do que ele disse quando eu cheguei com o Óscar. “Me orgulho de você”. Meu Deus do céu. Eu juro que diria isso a ele agora.
        Não sei por que, mas eu gosto de contar estas coisas e de me emocionar contando. Às vezes até choro. Sou boba mesmo. Hoje eu vou contar sobre o dia que o nosso Óscar latiu e em que circunstâncias isto aconteceu.


        Sem sair do quarto dei uma olhada nos dois. GabrielaCACHORRO OSCAR estava atenta. Havia tentado enxugar as lágrimas com as costas das mãos, mas só conseguiu espalhá-las na carinha toda.
        -Ele gosta de mim?
        -Ele quer gostar, Gabi. Ele quer muito gostar de você e de mim, e da sua mãe, como certamente gostou um dia de seus antigos donos. Mas tem medo de uma nova decepção. Gabriela, ele tem medo de fazer alguma coisa que nos leve a jogá-lo do portão pra fora como fizeram antes. É por isso que ele não late. O Óscar tem medo de latir e ser mal interpretado. Ele tem medo, minha filha. Muito medo. Mas lá no fundo das angústias e do trauma que ele carrega, ele te ama. Eu sei disso. Pode ter certeza disso. Nós só precisamos dar a ele...
        -Tempo e amor! Rebateu Gabriela abraçando o pai.
        -É. Na verdade eu estava pensando em tempo. Mas você está certa. Ele vai precisar também de amor.
        Então é o que ele vai ter: Todo tempo do mundo e todo amor do mundo.
        O Oscar continuava arredio. Andando em minha volta, com aquele jeito de cachorro acuado, com o rabinho entra as pernas e a carinha baixa, medrosa. Se Gabi se aproximava, ou Morrão, ele me circundava para me usar como escudo. Arriscava algumas olhadelas, mas movendo quase que só os olhos, sem quase mexer a cabeça. O veterinário não detectou nenhum problema com as cordas vocais dele, mas recomendou que procurássemos um profissional em comportamento canino. Gabriela, mais tranquila depois da conversa com o pai, procurava usar de “psicologia”, e estava conseguindo algum progresso. Fazia questão de colocar a comida e trocar a água dele, procurando ser o mais amiga possível, mas sem forçar nada. Já conseguia passar a mão na cabecinha dele e fazer alguns agrados sem que ele se retraísse e se refugiasse atrás das minhas pernas. Também não vivia mais se enfiando em baixo da bancada do Morrão quando ela se aproximava. Mais de um mês havia se passado. Talvez uns quarenta dias. Morrão ia chegar lá pelas oito, porque era sábado de Páscoa e ele ia fechar a loja mais tarde. E nós duas estávamos na cozinha ainda lidando com o jantar.
        De repente, latidos. E eram na garagem. Gabi abriu um sorriso tão lindo que parecia que aqueles latidos eram música.
        - Ele está latindo!
        Largou tudo e pulou da cadeira. “ Ele está latindo”
        Ela havia esperado ouvir aquilo a cada segundo que o relógio marcou durante quase dois meses. O Óscar estava latindo... Mas uma intuição me alertou que não eram latidos normais. Eram latidos furiosos. Ameaçadores...
        -Gabriela volte aqui! Eu vou ver o que está acontecendo - E saí no encalço dela, que parecia não ter me ouvido. Começava a escurecer, mas a tarde sombria ainda oferecia uma visibilidade satisfatória. Cheguei numa posição no canto da casa de onde podia ver toda a garagem. Oscar latia, avançava e recuava furiosamente. Ele latia pra bancada do Morrão.
        - Mãe, foi o pai que guardou aquele saco ali em baixo?
        De fato havia uma coisa marrom enfiada entre a prateleira e o tampo da bancada, mas não era um saco. Era...uma pessoa. Gabriela imediatamente depois da pergunta também percebeu.
        Fiz um sinal significativo para ela votar pra dentro e chamar a polícia, e ela agiu imediatamente, antes mesmo que eu terminasse o gesto. Oscar continuava suas investidas com ferocidade redobrada talvez encorajado pela minha presença. A bancada do Morrão não é grande. Mais ou menos um metro de altura por um e meio de comprimento. A cerca de vinte centímetros do chão, tem uma prateleira e portanto sobra um vão de uns oitenta centímetros entre a tal prateleira e o tampo da bancada. Não sei se o sujeito se enfiou ali para esperar o momento ideal de agir, ou para fugir do inesperado ataque do Oscar, que latia furiosamente. O dorso totalmente arrepiado, levantava agulhas douradas, como as de um porco espinho. Confesso que a presença de um intruso, potencialmente perigoso, naquele momento ficou um pouco em segundo plano. Eu estava mesmo fascinada era com o desempenho do Óscar diante da situação. Era um bicho ameaçador, transformado, lindo, uma fera totalmente envolvida em repelir a ameaça que representava aquele indivíduo dentro de nossa casa. De repente o sujeito abandonou o esconderijo, encobrindo o rosto com um dos lados do casaco e correu pro muro da frente.
        Recuei instintivamente enquanto o Oscar partiu atrás dele e conseguiu morder o homem por cima da perna da calça e por alguns segundos ficou pendurado enquanto o invasor, com incrível agilidade içou o corpo sacudindo a perna pra se livrar do cachorro, rolou sobre o muro e se deixou cair do lado de fora, Ainda pensei em procurar o controle pra abrir o portão e ver que rumo a criatura havia tomado, mas desisti. Oscar corria de um canto a outro do muro, tentava enxergar alguma coisa pelas frestas dos portões e bufava arrepiado e furioso até que percebeu que era inútil e voltou para se juntar a nós. Gabi que voltava lá de dentro correu pra ele e o abraçou pela primeira vez.
        Ficaram um tempão abraçados enquanto a Gabi ria e chorava. Acho que os dois choravam e riam, porque o Oscar grunhia, gemia se sacudia todo e lambia Gabi. Era seu jeito de dizer: "Graças a Deus você está fora de perigo". Tinha agido com bravura e sabia que era o herói da tarde. A noite tinha terminado de cair e estávamos todos quase no escuro. Gabi foi acender a luz da garagem na outra extremidade e chamou o Oscar. Vamos lá Oscar, vamos acender a luz. E ele foi. Parecia outro. Nossa! Oscar apesar de não ser nenhum Rottweiler, nenhum Pastor Alemão foi um “verdadeiro" cão de guarda. Daqueles que aparecem nos filmes, nas ações policiais. Tranquilo e até tímido no dia-a-dia, mas que ataca ferozmente quando tem que defender seu território ou seu dono. Não é isso que a maioria das pessoas gostaria de ter?
        Ainda estávamos festejando quando chegou a polícia que a Gabriela tinha chamado e eu já tinha esquecido deles completamente. Não só tinha esquecido. Ultimamente o sentimento que predomina em mim com relação a polícia, confesso que é de aversão, por causa do comportamento nada exemplar de alguns policiais e a presença deles ali, naquele momento já me parecia indesejavel. Fizeram as perguntas de praxe, as recomendações de praxe e saíram pra fazer uma ronda na vizinhança.
        Quando Morrão chegou, a Gabriela se encarregou de contar tudo com detalhes exagerados.
        -O Óscar botou o ladrão pra correr! - Não cabia em si de tão orgulhosa do herói dela, que se pendurou na perna do ladrão pra não deixar ele fugir. E foi assim que tudo aconteceu. O herói do dia em volta de todo mundo, balançado o rabinho como um espanador, até se apoiou na perna de Morrão que aproveitou para içá-lo para o colo pela primeira vez, mas foi por pouquíssimo tempo. Havia muita energia naquele corpinho para ficar no colo naquela hora. Daquele dia em diante o Óscar é um cão normal. Amigo inseparável da Gabriela e o orgulho da nossa casa. Este ano completam nove anos que ele está conosco. Quanta coisa aconteceu nestes nove anos. Oscar tem nos dado muitas alegrias nosso herói, e às vezes tristeza também, como naquele dia que ele desapareceu.
        Isso mesmo. Óscar um belo dia simplesmente de.sa.pa.re.ceu. Mas essa já é uma outra história acontecida alguns meses depois dessa do tal ladrão, e eu conto pra vocês na próxima vez.










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